
«Dores frequentes na zona do baixo-ventre – que se acentuam com os esforços – e relações sexuais dolorosas são alguns dos sintomas descritos pelas mulheres que têm varizes na vagina ou no útero, um problema de saúde cuja existência a maior parte desconhece. Este tipo de derrame está associado à dilatação de uma ou de ambas as veias ováricas e manifesta-se ou agrava-se na maior parte das vezes após o parto. É mais frequente em mulheres de meia-idade que tiveram mais de um filho.
O tratamento destas situações tem vindo a evoluir. Existe, por exemplo, a possibilidade de laqueação das veias, que implica uma operação associada a várias complicações.Uma das alternativas à cirurgia chama-se escleroterapia, técnica relativamente simples que consiste na injecção de um líquido esclerosante na veia ovárica – idêntico à substância usada para secar os derrames das pernas e sem perigo para a mulher.
O tratamento é feito com anestesia local e a mulher permanece entre seis a oito horas no hospital. Na maior parte das vezes regressa a casa no próprio dia. Os derrames desaparecem ou diminuam drasticamente.Esta técnica é usada desde 2001 no Hospital Saint Louis, em Lisboa. Segundo o radiologista Martins Pisco, chefe de serviço no Hospital Pulido Valente, que opera também no Saint Louis, a ausência de sinais característicos complica o diagnóstico deste tipo de varizes.Tal diagnóstico é evidente quando os derrames se localizam na vagina e são visíveis.
Contudo, na maioria dos casos as varizes, particularmente as do útero, não são visíveis exteriormente.Mas pode suspeitar-se da sua existência se a mulher tiver dores crónicas no baixo-ventre. Foi o que aconteceu a Susana, paciente que o CM acompanhou durante o tratamento.“Durante as duas gravidezes as varizes incomodaram-me imenso e provocaram algumas hemorragias ligeiras”, recorda a doente, de 35 anos.
Recuperada do último parto, Susana – cujas varizes, segundo conta, “causavam dores nas relações sexuais e durante a menstruação” – foi aconselhada a recorrer à técnica da escleroterapia.O primeiro passo do tratamento é anestesiar localmente a paciente na zona do baixo-ventre. Nesta fase Susana mostrou-se “tranquila e desejosa” de que encontrassem as veias.À medida que o processo se desenrola, os médicos verificam constantemente a tensão arterial da paciente através de um monitor.
Logo que a anestesia faz efeito, a equipa clínica insere um cateter na virilha até à veia ovárica. Depois, injecta um líquido esclerosante, o mesmo usado pelos cirurgiões vasculares no tratamento das varizes das pernas.Por ser difícil encontrar o local exacto da veia, o método envolve radiografias permanentes que são mostradas em ecrã. O raio X permite ver, com exactidão, onde se encontra a artéria e conduzir o cateter até ao local certo.“A veia ovárica direita está torta e eu não consigo tratá-la mais, vamos fazer o possível”, disse Martins Pisco à paciente durante o tratamento.
Depois de mais de duas horas nas mãos dos médicos, enfermeiros e auxiliares, Susana respirou fundo. “Penso que vou melhorar”, disse, convicta.Dois dias depois retomou a sua vida profissional e familiar.
VEIAS PODEM VOLTAR A ABRIR
“A possibilidade de as veias voltarem a abrir é de dez a 15 por cento”, diz ao ‘CM’ o médico Martins Pisco, chefe de serviço no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. O especialista garante que as pacientes não têm dores nem antes nem depois do tratamento. O médico, que desenvolve esta técnica no Hospital de Saint Louis, já tratou 45 mulheres com varizes no útero e na vagina.
O Saint Louis é o único centro do País onde se efectua o diagnóstico e o tratamento das varizes da vagina e útero por técnica minimamente invasiva. A maioria destes derrames manifesta-se ou agrava-se após o parto, devido ao maior fluxo sanguíneo e à compressão das veias pelo útero quando a mulher está grávida. As varizes vaginais ocorrem em cerca de dois a dez por cento das grávidas.
HOMENS PODEM TER VARIZES NOS TESTÍCULOS
Em Portugal é cada vez maior o número de homens que recorre a este tipo de técnica para tratar o chamado varicocelo – varizes que aparecem, regra geral, no lado esquerdo do saco escrotal (bolsas que envolvem os testículos). Este problema pode, inclusivamente, dificultar a fertilidade masculina, uma vez que o sangue fica preso na veia responsável pela produção de esperma, aumentando a temperatura do testículo e diminuindo a mobilidade dos espermatozóides.
Apesar de não existirem dados oficiais, alguns estudos estimam que o varicocelo afecte entre dez a 15 por cento da população masculina portuguesa, independentemente de os homens estarem ou não em idade fértil. Crianças, adolescentes e idosos são potenciais doentes.O chefe de serviço do Hospital Pulido Valente, Martins Pisco, já tratou alguns homens com varicocelo e dá conta de uma realidade crescente: “Há muitos jovens que têm este problema. Está a tornar-se quase comum.” O médico salienta, porém, que o tratamento já existe em vários hospitais do País.
APONTAMENTOS
SINTOMAS
Dores no baixo-ventre que aumentam com a intensidade dos esforços e também durante as relações sexuais.
PARTO
As veias ováricas estão directamente associadas com a dilatação, razão pela qual se podem manifestar ou agravar durante ou após o parto, devido ao maior fluxo sanguíneo e ao útero portador de gravidez.
EXAMES
Muitas vezes a ecografia, a ressonância magnética e a tomografia são negativas. Martins Pisco sugere então a angiografia da veia ovárica.
MULHER-ALVO
As varizes da veia ovárica afectam mais frequentemente as mulheres de meia-idade e que já tiveram filhos.
TRATAMENTO
Introdução de um cateter na veia ovárica seguida de injecção de esclerosante.
PORMENORES
ANESTESIA
O primeiro passo do tratamento é a anestesia local das pacientes, através de uma injecção de lidocaína na zona pélvica. Quando é necessário, reforça-se a dose da anestesia.
TÉCNICA
É introduzido um cateter através da virilha. Quando chega à veia é injectado um líquido esclerosante, usado nas varizes das pernas e que não tem riscos para a saúde. As varizes desaparecem ou diminuem.»
Fonte: Correio da Manhã